• pedroncarolina

Minha experiência ganhando o Prêmio Olga Zeni de literatura de 2020


Imagem retirada do site do Instituto Federal do Paraná - Campus Irati


Meu nome é Carolina Gonçalves Pedron, estudo no Instituto Federal Farroupilha e vim compartilhar a experiência que tive participando e ganhando o prêmio Olga Zeni de literatura 2020 do concurso Sentir de todas as formas do Instituto Federal do Paraná.


Primeiramente quero agradecer a professora Rosimeire Simões, minha professora de português, por ter me incentivado e também outros tantos alunos a se expressarem, estimularem suas habilidades com a escrita e também por apresentar estas possibilidades para todos. O prêmio Olga Grechinski Zeni de literatura foi promovido pela Comissão do Concurso Literário e a premiação ocorreu na Semana da biblioteca do Campus Irati e premiou textos nas categorias de crônica, conto, poema em língua portuguesa e poema em língua estrangeira destinadas a todos alunos do IFPR e outros institutos federais.

Meu texto foi direcionado para a categoria de contos e fala muito sobre meus sentimentos durante esta quarentena, e acredito que de muitas outras pessoas. Tentei expressar ao máximo o quanto minha mente tem passado e enfrentado com a ansiedade, doença psicológica que vem afetando milhares de brasileiros a cada dia, e naquele lado que geralmente escondemos e não abrimos até para as pessoas mais próximas. Também conto como estou lidando em tempos onde temos que conviver mais com nós mesmos do que com qualquer pessoa e como acabamos nos descobrindo tanto positivamente como negativamente, que nos faz questionar muito sobre a pessoa que estamos nos tornando. Fiquei muito contente com o reconhecimento que teve por saber que talvez ele possa servir de aprendizado para muitas pessoas que pensam em desistir, como eu, para lembrarem que amanhã é um novo dia.


Para ser sincera nunca imaginei que iria ganhar, tanto que por isso quase não cheguei a enviar, mas o mundo é um lugar louco! Agradeço ao Instituto Federal do Paraná pelos prêmios, principalmente os livros que irei aproveitar muito. Também ao incentivar tantos outros alunos a escreverem textos e se dedicarem a leitura cada vez mais e sempre reforçarem a sua importância em um país com uma educação tão precária.


Deixo aqui o meu texto e fotinha dos meus prêmios, obrigada por acompanharem um pouco dessa minha jornada e esse passo incrível que dei em minha vida.


(Lembre-se, se estiver precisando de ajuda ligue para 188 ou converse com seus familiares e amigos)


Sentir só mais um dia

Abro os olhos, é aquele maldito teto branco de novo. Sinto meu coração bater e minha respiração ficar mais rápida. Espreguiço-me em meio daqueles cobertores que já não recebem sol há alguns meses. Os cantos dos pássaros já não soam do mesmo jeito. Agora só servem para avisar que mais um dia precisa ser vivido. O que eu não queria. Contemplo a janela e lá está ela, aquela vista, aquela única e mesma vista de sete meses atrás. Com os prédios que a cada dia ficam mais cinzas e o limoeiro que contradiz com a vida dos seus limões verdes aos podres que caem por não seres tocados e recolhidos. E depois de tanta reluta me levanto. Observo aquele quarto tão cheio, mas tão vazio de essência. Onde já deixou de ser meu refugio dos dias cansativos para ser onde mais quero distancia agora. Arrumando a cama me deparo com aquele travesseiro, que antes guardava todos meus sonhos e ambições e agora guarda as lágrimas que escorrem da dúvida e do medo. Minha visão corre e para naquela escrivaninha com vários cadernos escancarados cheios de escritas, com uma letra deprimente de alguém que certamente não estava com a finalidade de escrever algo. Palavras jogadas e embaralhadas que já não faziam mais sentido para meu cérebro. Vou à cozinha para o preparo do meu café que a essa altura não é mais uma opção, mas sim uma necessidade para conseguir enfrentar mais um dia. O cheiro e o gosto invadem o meu corpo e tudo começa a ficar mais amplo. O barulho do relógio quebra o silencio, e junto com ele vem à incerteza se tudo isso esta realmente andando ou só eu que estou parada? Às vezes sinto que o tempo me sufoca. O calendário ainda esta na parede, com muitos números e datas diferentes, mas ultimamente os dias parecem serem os mesmos. Hoje não esta sendo muito diferente de ontem, nem de um mês atrás. Ah, aquela porcaria de lista de afazeres está na geladeira. A improdutividade cada dia amarra mais um corda em meu corpo, e crava no fundo do meu mar de indisposição. Como posso ser assim? Resolvo ir para o banho, a água preenche o vazio de minha mente que anda perdida em seus próprios pensamentos. Cada gotícula entra em encontro com minha pele e tudo rapidamente se torna em um extremo riacho de sensações. O calor. O toque. O contato. Já não recordava mais. Só assim para suportar a solidão da presença. Saio do banho e coloco aquela roupa que provavelmente já se tornou parte de mim. Passo correndo pelo corredor para não precisar me deparar com o espelho. Prefiro evitar olhar para aquela expressão do meu rosto, os olhos cansados com a profundidade de um rio cheio de peixes mortos, as olheiras representando o luto de uma alma que anda se destruindo aos poucos, e uma boca que mesmo fechada grita por alguém. Dizem que é fácil de simpatizar com a solidão em algum momento, pois sempre fomos sozinhos na vida. Com nossas próprias vivencias e jeitos de ver o mundo, mas agora sinto que é impossível gostar de ficar sozinha, por que é a mim mesma que não suporto. Prefiro fugir de tudo isso. Abro a gaveta do meu quarto, pego um fone de ouvido e conecto ao meu celular. Fecho as janelas, tranco a porta e deixo que o som invada todo meu corpo. O ritmo logo se assemelha a minha pulsação e a harmonia se conecta com o movimento de meus passos. E em um passo de mágica todo o mundo exterior se desliga e tudo começa a ficar mais colorido. Memória de dias melhores vem e a esperança se torna mais próxima. O quarto se torna palco da minha felicidade e talvez, mesmo que por um instante, a monotonia perde o foco dos holofotes da existência. A música entra como o oxigênio de um respirador e eu finalmente sinto o que é estar viva novamente. Porém o fone cai. O silencio penetra novamente. O vazio acerta como um tiro em meu coração. Abro a janela e todos os limões apodreceram e a luz do sol fugiu levando com ela mais um dia. Olho em volta e tudo esta em preto e branco. As escritas dos cadernos somem e o calendário cai da parede. As datas se esparramam pelo chão junto com as lágrimas em meu rosto. Grito para aquele teto que me acompanha todos os dias “Só quero viver”, mas ele preferiu fugir. O desespero se mistura com o ar e de repente esta circulando em todo meu organismo. As paredes começam a se fechar e eu corro para meu único conforto. O travesseiro. Afundo minha cara nele com a intenção de que minha mente afunde também. Para de pensar, para de pensar, para de pensar. Abro os olhos. Ah, é aquele maldito teto branco de novo.





21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

© 2023 por Amante de Livros. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • Branco Ícone Google+