O IMBECIL COLETIVO

Por Pedro Ziebel do 3º MSI B/ IFSVS





Dentre diversas obras necessárias para a compreensão do cenário político nacional vigente está o polêmico autor Olavo de Carvalho. Polarizador e em suas próprias palavras “explosivo”, ele escreveu obra “O imbecil coletivo”. Esse livro, que faz parte de uma trilogia sequencial do ensaísta, influenciador e ideólogo consiste em um conglomerado de artigos escritos desde 1992 até 1995, com notas de rodapé e uma grande introdução, assustadoramente atual, em um tom quase profético, descrevendo eventos e figuras que viriam a surgir nestes quase 30 anos de idade da obra.


É impossível falar desse livro sem falar do autor e do contexto que estava inserido. Olavo de Carvalho é uma figura bastante importante na história do pensamento público brasileiro, pois foi talvez o primeiro no período pós-redemocratização que teve coragem de apontar os erros metodológicos e a influência que a esquerda brasileira detinha sobre a universidade e a juventude, demonstrando as contradições em grupos de esquerda no domínio da cultura e no próprio estado. Ele também possui a virtude de ter aberto os horizontes para uma bibliografia Liberal-conservadora, praticamente inexistente no Brasil anteriormente.


Ou seja, uma figura pioneira e central no pensamento “não de esquerda” brasileiro -O que explica porque a simples menção a seu nome causa asco a uns e ao mesmo tempo profunda admiração em outros.

Os artigos contidos nesse livro corroboram com a tese central de sua obra que é a de que a história das ideias ocidentais se compreende em um eterno fogo cruzado entre behemot e leviatã (que inclusive ilustra a capa do primeiro livro).




Seu autor original Willian Blake teve por objetivo nessa obra representar as forças tementes a Deus como behemoth simbolizando estabilidade, terra e firmeza enquanto seus opositores como leviatã simbolizando a volatilidade, aquilo que esta submerso com a turbulência das águas e sua imprevisibilidade.



Na interpretação do Olavo, isso se traduz na atualidade como a disputa pelo poder entre o rígido conservadorismo e a húbris revolucionária em suas várias feições. No entanto,interpretar behemoth como direita enquanto leviatã como esquerda seria incorrer em erro em diversos contextos. Por exemplo, no próprio Brasil pós redemocratização, que forçava grandes autores ditos conservadores como Nelson Rodrigues e o próprio Olavo a se esgueirar, a margem da academia consolidada e com base firme era evidente. Nesse caso, nos últimos anos, ouve uma espécie de “revolução” no pensamento público brasileiro em que a direita operava como o leviatã. E parafraseando muitos teóricos brasileiros e norte-americanos que alegam que na atualidade a esquerda se aproxima muito mais dos girondinos (elite intelectual e econômica que se sentava a direita na Assembleia Nacional na revolução francesa) e a direita com os jacobinos (representantes não ortodoxos do povo faminto e enfurecido que se sentavam a esquerda). E por fim sabe-se muito bem que a história das ideias ocidentais é muito mais antiga do que a revolução francesa.



Portanto, a partir disso Olavo descreve a história das ideias ocidentais pós iluminismo, como um pêndulo entre ideologias de dominação e de submissão que se alternam ao longo do tempo, sendo a atual uma de submissão. A “nova era” descrita em seu livro “ A nova era e a revolução cultural” não tem uma definição fixa, porém pode ser identificada em tudo aquilo que tenta fazer um Frankenstein epistemológico entre física quântica, misticismo oriental, promessas de paz interior e ilusões de auto – ajuda, esta teoria é atribuída por Olavo a Fritjof Capra, que na falta de cânones foi escolhido para representar estas ideologias que possuem algo que as une. A oposição cega a qualquer sorte de hierarquia, inclusive o próprio imperativo da verdade , para eles não existem verdades absolutas e a humanidade as descobre e muda de época em época, e sim que a própria verdade se expressa a partir do que os seres humanos teorizam, falam ou escrevem- com isso, surge o relativismo, já que não existem verdades absolutas, portanto não existem informações mais verdadeiras que outras.



Em suma, a ideologia da nova era simplesmente corrobora com aquilo que já vinha sendo empregado na mídia, no estado e na academia o Gramchismo. Olavo então começa a descrever o gramchismo pela diferenciação entre poder e hegemonia, sendo poder, o controle sobre o estado e as forças de repressão e a hegemonia, o controle sobre a mente das multidões. E estabelecendo uma diferença fundamental entre o modelo revolucionário do gramchismo e do modelo clássico Marxista-leninista que seria primeiramente tomar as rédeas do poder central e somente após isso estabelecer uma hegemonia intelectual pela doutrinação estatal obrigatória, algo que Gramsci discorda diametralmente.



Gramsci, observando a barbárie da revolução russa nos moldes clássicos, discorreu em uma maneira de se chegar à revolução sem derramamento de sangue. Isso se resume à inversão da ordem de tomada do poder pelos revolucionários. Começando primeiramente com a hegemonia, posteriormente o poder estatal, talvez até mesmo democraticamente. Se para Marx e Lenin são necessários soldados armados para tomar o controle do estado, para Gramsci os soldados são os intelectuais, ou melhor os “intelectuais no sentido elástico” que melhor servem ao propósito, não de convencer as pessoas racionalmente com debates e constatação de fatos, mas sim influenciando a população de qualquer maneira que for possível, utilizando métodos desde condicionamento Pavloviano até mensagens subliminares a músicas, danças, filmes e livros.



Isso explica em parte o porquê de atores, cantores e outros artistas serem alçados ao patamar de analistas políticos respeitadíssimos por simplesmente se posicionarem do lado “certo”, definindo bem o conceito de intelectual no sentido elástico e também demonstrando como Gramsci interpretou a tese 11 de Marx contra Feuerbach em que Marx escreve que, até então, os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de uma certa maneira e que aquela era hora de botar suas teses em prática e transformar o mundo. Para Olavo, tal estratégia subverte a função do filósofo, já que em algum ponto o esforço de analisar o mundo colide com o de mudá-lo, levando esta inversão da função do filósofo às ultimas consequências, seria dizer que tudo aquilo que o filósofo diz deve estar a serviço da revolução, propaganda para assim finalmente mudar o mundo.



Sintetizando, isso são os artistas, a mídia, pessoas que influenciam as outras de modo geral falando bobagem, fazendo bobagem, escrevendo bobagem para assim tentar influenciar as massas. Enfim uma tentativa de criar um novo senso comum, destruindo as crenças e pensamentos tradicionais com o fim de transformar a sociedade em algo que aceite a revolução sem sangue, porém se esses “intelectuais” forem observados de forma isolada não se encontrará nada suspeito, porém se observarmos o conjunto de tudo e todos, mesmo inconscientemente, encontra-se a figura do “intelectual coletivo” ou nas palavras do próprio Olavo “O imbecil Coletivo”.



Na minha humilde opinião, é de fato uma obra interessante, uma leitura muito proveitosa porém maçante e em alguns pontos do livro me parece que o autor deixa suas emoções falarem por si o que o faz incorrer em várias falácias que passariam despercebidas a um olhar desatento, o que é compreensível devido à natureza do livro que consiste em um conglomerado de textos e artigos que corroboram uma tese e não uma tese em si, e apesar do tom conspiratório e seu extremismo político, de fato existem muitas análises bem feitas e como eu disse anteriormente assustadoramente atuais o que faz com que o livro não chegue a ser um Opus Magnum, porém também não um livro comum e efêmero.

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