• manurosa3011

SHNAI - EPISÓDIO II: O PINHEIRO

Uma história por Manuela B.R. do 1 ADM B/IFSVS


(desenho feito por mim + imagem de fundo tirada da internet)



Santo Humberto do Norte e seus Acontecimentos Inimagináveis


Episódio II – O Pinheiro



Já faz um tempo que foi criada aqui no município a ONG Projeto Arvoredo, onde um grupo de pessoas basicamente plantam árvores na praça e tentam montar folders para incentivar os cidadãos a serem mais ecologicamente ativos, folders esses que na maioria das vezes não funcionam com a galera daqui. Eu faço parte dessa ONG e é triste ver como muita gente dessa cidade não se importa, mas no início a coisa até que dava certo.

Dona Julieta (uma senhora de 54 anos bem conhecida aqui na cidade) foi a idealizadora desse projeto. Ela pensou que seria alguma solução para deixar a cidade mais verde e as pessoas mais conscientes, por isso, falou com alguns amigos e filhos de amigos e eles ergueram essa ONG. Eles conversaram com o prefeito da época, que adorou a ideia, e conseguiram um espacinho ao lado do prédio da prefeitura, onde começaram a montar algumas estratégias para levar conscientização ambiental para as ruas.

No início, foi o bom e velho plantar de árvores, em um terreno grande da prefeitura que servia como um parque, mas com pouca natureza e com uma grama extremamente seca. Com o trabalho da ONG e com o apoio e doações da comunidade, eles praticamente botaram aquele parque antigo no chinelo. Naquele tempo, o parque central da cidade ficou repleto de árvores, um ar fresco, com um playground bem cuidado e uma grama com um verde bem verde.

Porém, a cidade ainda precisava de mudanças, ainda era cinza, com poucas árvores nas calçadas e casas, e quase não se enxergava grama. Foi nessa época, há 2 anos atrás, que eu e meu comparsa de ONG, o Leo, começamos a ajudar no projeto. A coordenadora da ONG sugeriu que nós e os outros jovens de lá fossemos levar mudas de árvore nas casas das pessoas de nossas ruas, e foi assim que fizemos. O problema é que foram poucos indivíduos que quiseram, e alguns – soubemos depois por intermédio de uma integrante do projeto – colocaram as coitadas no lixo. Pois bem, não foi uma empreitada muito eficiente.

Pra piorar a situação, ano passado caiu um temporal enorme, derrubando várias árvores do parque (muitas que os antigos Arvorenses haviam plantado), e esse ano estamos tendo que replantá-las. Mas sempre tem algum problema aparecendo. No momento, o tal problema é um empresário que quer construir um restaurante no meio do parque, mas pra ter o espaço que ele diz que necessita, terá que derrubar alguns velhos pinheiros que foram plantados pelo próprio pessoal da ONG. E Dona Julieta não estava nada feliz com isso.

- Eu disse pro Paulo Ricardo que aquele maldito podia fazer o restaurante, era só não cortar os meus pinheirinhos, mas não, aparentemente ia ficar com “pouquíssimo espaço”. Aí eu perguntei: “é um restaurante ou uma mansão?”, e ele ignorou completamente o que eu disse, continuando com aquele papo de “eu deixo vocês plantarem mais pinheiros, em outro canto da praça”. Eu já comecei a ficar aborrecida com esse homem. – ela chega com pressa na pequena sala da ONG, chamando a atenção de alguns Arvorenses que estavam trabalhando lá. A irritação era visível – toda vez que ela discute com o prefeito, chama o mesmo só pelo nome.

- E o que o pessoal da Secretaria do Meio Ambiente disse? – um Arvorense veterano perguntou, enquanto tirava xerox de algumas folhas com desenhos de várias plantas, provavelmente para as crianças colorirem.

- Praticamente a mesma coisa. Armindo, traz uma água pra mim, por favor, vem vindo uma dor de cabeça danada. – disse a cansada Dona Juliana, enquanto sentava no sofá velho que ficava em frente à mesa onde eu, Leo, e mais uma menina estávamos cuidando de algumas mudas de laranjeira, limoeiro e tangerineira. O Seu Armindo parou de cuidar a impressora e foi buscar um copo de água para a teimosa coordenadora. – essas daí vieram de onde?

- Da chácara do Seu Guto, aquele que trouxe aquelas melancias pra gente na semana passada. O bom é que as árvores frutíferas são as que mais saem, depois dos ipês, meu Deus, nunca tinha visto tanta gente vir procurar ipês aqui. – o Leo fala com um sorriso no rosto, porque um total de cinco pessoas vieram procurar mudas de ipê aqui no Arvoredo. Pode parecer pouco, mas é incomum a galera da cidade aparecer por aqui procurando algo para plantar, acho que finalmente estamos voltando à ativa.

- Ótimo, ele é um dos bons que ainda nos ajudam. Ah, vocês sabem bem dessa história dos pinheiros, não é? – nós três assentimos – eu realmente não sei o que fazer, crianças. Eles querem derrubar parte do nosso legado, que erguemos por quase 20 anos, tudo por causa de um restaurante, um RESTAURANTE. O mais complicado é que aquele empresário tem dinheiro até para NOS derrubar, se ele quiser. Mas eu não vou deixar eles derrubarem aqueles pinheiros, nem que tenham que passar por cima de mim! – a irritação não passava nem por um segundo.

- Calma, Dona Julieta, eu sei que a senhora tem apreço por aquele parque, até porque foram vocês que o ressuscitaram. Mas você pode fazer um acordo com eles, talvez. E na minha opinião, um restaurante iria dar uma movimentada a mais por lá! – a outra menina, um pouco receosa, falou enquanto observava a reação confusa da veterana.

- Eu concordo! E se a senhora proposse para eles algo como “a quantidade de pinheiros que eles derrubarem, multipliquem por algum valor e plantem pelo parque ou pela cidade”? Eles nos poupariam bastante trabalho. Ou podem pedir para nós plantarmos, mas eles quem dão o material necessário. Sei lá, é só uma ideia, mas eu acho que poderia funcionar. – eu finalmente me arrisco e exponho as minhas ideias para a coordenadora, que pensa um pouco, e logo me responde:

- Meninas, fico feliz que vocês estejam procurando uma solução, mas eu sinto que aquele homem é ganancioso. Se ele construir aquele restaurante, acho que não serão só os meus pinheirinhos que serão cortados. Ele vai querer mais espaço, uma hora ou outra. E nós ainda estamos com bastantes inconvenientes: teve aquele temporal do ano passado, que o parque ainda não se recuperou totalmente; também teve aquela queda daquele avião, semana passada, levou duas Sibipirunas com ele. O pior é que eu duvido que o restaurante não faça sucesso, até porque o parque tem e é uma vista esplêndida. – ela tira os olhos de nós e dá um sorriso orgulhoso, porém triste – Nós somos praticamente os pais daquele lugar, não quero que ele volte a ser triste e descuidado como à 18 anos atrás.

O Seu Armindo volta da cozinha improvisada com um copo d’água, e entrega para a Dona Julieta. Ela fica em silêncio um pouco, pensando, o Seu Armindo volta para a impressora, que estava dando problemas e provavelmente precisava de mais tinta, e nós continuamos colocando plaquinhas nas mudas, com a espécie de cada uma escrita.

Pessoalmente, acho que a Dona Julieta está exagerando. Claro, ela fez parte da história daquele parque, mas é preciso mudar o ambiente às vezes. Nós vamos continuar cuidando do parque como sempre fizemos. Vamos terminar de plantar as mudas, montar a horta comunitária que sempre cobiçamos, juntar o lixo das calçadas (quando a prefeitura esquecer o dever de limpar os locais públicos), torná-lo cada vez mais um lugar melhor. Um restaurante não muda nada. Pelo que eu sei, se eles derrubam alguma árvore, é obrigatório o reflorestamento em outro local, então porque ela nega tanto?

-Ei, Bianca. – o Leo sussurra pra mim quando os outros não estão olhando. – você não acha que a velha tá escondendo alguma coisa?

- Não chama a Dona Julieta de velha, animal. – eu o repreendo, ainda sussurrando.

- Tá bom, tá bom. Mas aí, ela falou sobre isso tudo, dos pinheiros e tal, mas é só plantar em outro local! Não vai dar muita diferença, eu acho. Nós já estamos acostumados com a teimosia dela, mas isso tá estranho.

- Eu concordo, por mais que ela seja apegada ao parque, tá meio confuso. A gente fica observando.

- Beleza, me chama se souber de alguma coisa.


Um tempo se passa e a Dona Julieta decide que hoje será o dia de plantar mudas nativas no parque, uma programação bem normal ultimamente, visto que já estamos quase acabando com o prejuízo que tivemos em relação ao temporal. Eu e alguns Arvorenses pegamos uma sacola de cinco mudas cada um, algumas pás e um regador vazio (há várias torneiras lá, o que facilita bastante o nosso trabalho) e fomos em direção ao parque. Já é quase onze horas, mas o sol não está muito quente.

Enquanto andávamos, fui conversando com o Leo e com a Susana (uma outra Arvorense da nossa idade que normalmente chega atrasada na ONG) sobre coisas do cotidiano e sobre Ordinários Paranormais, uma série de televisão sobre comédia e terror que nós assistimos de vez em quando. Nada no mundo fazia a Susana aceitar a morte do Diego no final da segunda temporada, por mais que essa ação tivesse salvado todo o resto do time.

Quando estávamos próximos ao parque, vi um rosto conhecido andando do outro lado da rua: Elisa. Depois daquele dia tenso do avião, nunca mais havíamos trocado uma palavra. Na real, não tem porque conversarmos, porque eu continuo desgostando dela. Quando o Leo nota a sua presença, revira os olhos e evita olhar de volta para a mesma, indo conversar um pouco mais com a Susana. É, ele tá envolvido em toda essa picuinha. Mas isso é assunto para outro episódio.

Finalmente, chegamos no parque. Porém, a Dona Julieta resolveu que iríamos plantar as mudas em um canto diferente, perto de onde seria a área do restaurante. Todo mundo estranhou esse fato, mas sabemos muito bem que ela queria implicar um pouco com o tal empresário cheio do dinheiro (se bem que ele não vai ligar muito para isso). Ninguém contestou, logo, fizemos os buracos, plantamos as mudas, e as regamos. Olhando para o ambiente do parque, sentimos que estávamos fazendo um bom trabalho. As árvores que plantamos ano passado cresciam muito bem, assim como as desse ano. As calçadas estavam limpas, a grama não continha nenhum lixo. A antiga natureza abraçava a mais nova. A questão do restaurante não vai arrancar a beleza que o parque exala, não mesmo.

Já era 11:20, então, cada um dos Arvorenses foi para a sua casa, com exceção da Dona Julieta e do Seu Armindo, que tinham que levar os materiais que utilizamos de volta para a sala da ONG.

Ao chegar em casa, comecei a minha rotina de sempre: separar meus cadernos, arrumar meu quarto, almoçar, dar comida para o Tilápia (sim, meu gato tem nome de peixe, um dia falo mais sobre ele), fazer a higiene pessoal e ir pra escola. No colégio, tudo certo também: aula, aula, aula, intervalo, aula, aula. Logo o barulho estridente – que parecia um alarme de incêndio – do sinal da saída tocou, eu juntei as minhas coisas e fui embora.

Na quadra que fica após a escola eu fui alcançada pelo Leo, que vinha correndo. Ele mora pro lado oposto da cidade, não fazia sentido ele vir me acompanhar, então alguma coisa aconteceu.

- BIANCABIANCABIANCA você leu as mensagens do grupo do Arvoredo? – ele chega e me pergunta, nem um pouco ofegante com a corrida. Acho que o cara é atleta, viu?

- Não, deixa eu ver. – nem espero ele falar e pego o celular para ler o que enviaram no grupo.

Tinham algumas mensagens, mas a principal era a do Caetano, um dos Arvorenses, dizendo que foi ao parque com a esposa essa tarde e não conseguiu encontrar as mudas, aquelas que plantamos hoje, porque elas foram ARRANCADAS do chão. O pior é que a pessoa que fez isso levou as plantinhas sabe-se lá para onde, só ficaram os buracos e um punhado de terra amontoada.

- Nem ferrando. Porque que alguém iria querer fazer isso? – eu indago. Nada disso faz o menor sentido.

- Eu não faço nem ideia, mas com certeza não gosta da gente.

- Mas quem é que iria desgostar do Arvoredo, Leonardo? Nós nunca fizemos mal nenhum à ninguém. – eu tento pensar em alguma vez que deixamos alguém irritado. A Dona Julieta já irritou bastante o prefeito, sim, mas ele nunca mandaria alguém fazer algo assim. Talvez aquele empresário? É um palpite arriscado, mas vai que seja ele, realmente. – Aquele cara, o do restaurante, será que ele mandou alguém arrancar as coitadas? Ele pode ter ouvido falar que a ONG da cidade era contra a construção do negócio deles e tentou... nos boicotar?

- Pode ser que sim, mas eu acho que não. Não tem motivo, a gente não manda no prefeito nem nada. – ele faz uma pausa e volta a falar. – tá bom, quer ir lá no parque pra ver com os próprios olhos o que aconteceu?

- Quero. A gente pode achar alguma pista de quem foi, também.

Logo depois de eu terminar a minha frase, nós fomos em direção ao parque, que era à caminho da minha casa. Ao chegarmos lá, encontramos a Dona Julieta e uma moça, também da ONG, conversando com o Caetano e sua esposa. Eles não percebem a nossa chegada, e conseguimos ouvir a Dona Julieta furiosa:

- Eu vou socar aquele maldito! Ele não tinham NENHUM DIREITO de fazer isso, NENHUM!

- Se acalme, Dona Julieta. – o Caetano tenta acalmá-la, enquanto a moça que estava assistindo segura o ombro dela - Nós não sabemos se foi ele mesmo, ainda mai-

- É CLARO que foi! Não, na verdade, ele deve ter mandado alguém fazer isso... Eu sabia que esse homem era podre! – claramente ela estava falando do cara do restaurante, pela ira na voz dela. Nós nos aproximamos enquanto eles discutiam, até notarem a nossa presença.

- Oi crianças, o que vocês fazem aqui? – a companheira de Caetano nos pergunta, mesmo já sabendo a previsível resposta.

- Nós lemos as mensagens no grupo e viemos ver o que aconteceu, se a situação era tão ruim assim. – Leo responde, de prontidão. – Dona Julieta, a senhora tá achando que foi aquele tal empresário, né? O do restaurante. Tem certeza disso?

- Certeza eu não tenho, mas é o que apontam os fatos: nós plantamos as mudas perto de onde será o restaurante, ele quer cortar as árvores do MEU parque para aquela construção ridícula, é ele ou eu não sei mais de nada. – Ela diz, um pouco mais calma (provavelmente porque as “crianças” chegaram). Realmente, os indícios apontam para ele, mas ainda assim, como que alguém se incomodaria com... Plantas?

- A gente pode dar uma olhada? – ela assente em resposta à minha pergunta. – eu sei que provavelmente não vai adiantar nada, mas pode ser que a gente encontre algo por aí. – a Dona Julieta dá de ombros, enquanto a moça que estava junto dela dá um suspiro, desaprovando as atitudes da mais velha.

Eu e Leo vamos em direção da terra remexida, antigo lar das mudinhas, enquanto Dona Julieta e o casal vão embora. A moça Arvorense fica alguns instantes a mais e nos diz que, se virmos algo suspeito, mandemos mensagem. Nós concordamos e damos uma olhada com atenção na terra.

- Bianca, olha que estranho. – ele aponta para um buraco cavado com uma pá, onde, de manhã, estava plantada uma muda de Sibipiruna. – Eles tiraram a muda com uma pá.

- E o que é que tem?

- Se eles não quisessem a planta aí, porque não arrancaram a força? A terra estava fofa, não seria muito difícil. Eles levaram as mudas para outro local, não arrancaram só para ir contra a ONG. – ele comenta, não sabia que ele era tão bom observador.

- Nossa, faz sentido, Leo! Por isso você é o inteligente da nossa dupla. – Eu falo enquanto mando para ele um positivo com uma das mãos. – então, eles usaram uma pá, e estão com as mudas. Mas qualquer um tem uma pá e pode comprar mudas.

- Você... tem um bom ponto. É, tá certo. –Nós ficamos refletindo um pouco sobre o próximo passo, até o Leo voltar a usar a cabeça. - E se nós fossemos tentar falar com o cara do restaurante? Ele é o principal suspeito, até porque essa coisa da pá não muda muito no caso dele.

- E como a gente encontra ele? – eu indago.

- Perguntamos para o prefeito? Ele pode estar lá na prefeitura, também.

- Vale a pena tentar.

Nos levantamos, decididos a ir na prefeitura a procura do tal empresário. Saímos do parque e fomos em direção à rua mais movimentada da cidade, onde se localizam o mercado com o monopólio na cidade, um pequeno cinema antigo, que passa algum filme só de vez em quando, um pequeno playground com uma academia ao ar livre, muitos carros estacionados, um “shopping” (é só um pavilhão com lojinhas, mas eles decidiram chamar de shopping, vai entender) onde se vendem roupas, uma livraria e, enfim, a pequena sala da ONG Projeto Arvoredo e a prefeitura municipal.

Ao entrar na prefeitura, percebemos um pequeno grupo de pessoas conversando com um homem de terno. Tinha o cabelo preto, um pouco grisalho, uns um metro e oitenta de altura (ele era menor que eu, haha), e usava um relógio de prata, exatamente a figura que a Dona Julieta nos ilustrou no dia em que ela o viu pela primeira vez. Eu e Leo nos entreolhamos e fomos tentar conversar com ele. Meu companheiro, meio receoso, cutucou o ombro do homem, o chamando.

- Oi senhor... Ernesto, tudo bem? – ele quase esquece o nome do empresário, normal vindo dele – eu sou o Leonardo, e essa é a Bianca.

- Ah, olá crianças, tudo certo. Só me deem um instante que eu já falo com vocês, ok? – ele se dirige a nós com um sorriso no rosto, logo se virando de volta ao grupo.

Eles conversam por mais alguns instantes, até as pessoas em volta começarem a se dispersar, e o empresário vem em nossa direção.

- Vocês devem ser da ONG Projeto Arvoredo, não é? Eu percebi as fitinhas no pulso – realmente, todos os integrantes do projeto recebem uma fita verde, com dois tons diferentes e com a logo da ONG, quando plantam sua primeira árvore. – a senhora que falou comigo há um tempo também tinha uma dessas.

- Ah, sim, somos sim. E o senhor deve estar falando da Dona Julieta. – eu afirmo, lembrando do dia em que a nossa coordenadora quase bateu na porta de vidro da ONG enquanto contava que alguém queria derrubar o parque inteiro (óbvio, é exagero, mas parecia que era isso mesmo) por causa de um restaurante. – nós podemos falar com o senhor sobre... o restaurante?

- Claro. Bem, a Dona Julieta não me deixou falar exatamente o que eu estava pensando com o restaurante e com os... pinheiros dela. Ela só ouviu a parte de “derrubar árvores” e me xingou por um tempo, haha. – ele comenta conosco, um pouco envergonhado de levar esporro de alguém que ele mal conhecia.

- É que ela tem uma personalidade meio forte, hehe. – o Leo diz, e realmente, é fato que conviver com a Dona Julieta depende de muita paciência.

- Pois é. Agora, falando do restaurante, ele não vai “quebrar” o ambiente do parque, nem vai ser tão extenso. O plano é que ele tenha a capacidade máxima de 100 pessoas e que seja construído boa parte com madeira, a maioria de pinheiros, alguns vindo do parque e outros vindo de uma madeireira do município vizinho.

- Calma, os pinheiros do parque que vão ser derrubados são aqueles que estão no perímetro do restaurante, não é? – eu pergunto, vendo se as informações batem.

- Correto, aqueles dentro da área programada. Outra coisa que eu acho que não foi bem esclarecida é que nós vamos sim replantar toda e qualquer árvore que tivermos que derrubar. Isso porque é de lei, além de que eu, por mais que vocês não acreditem, sou um admirador da natureza. O parque dessa cidade é um lugar majestoso, e eu admiro o trabalho e dedicação que a ONG teve por anos. Sei também das dificuldades que vocês tem passado, ainda mais com aquele temporal que ocorreu, e nós estamos dispostos a ajuda-los de qualquer maneira, mas o restaurante será construído. Nós traremos um ótimo empreendimento para a cidade, acreditem! – ele termina a sua explicação com um sorriso, ao meu ver, bem verdadeiro. Nem precisamos perguntar se ele tem envolvimento com o sumiço das mudas, pois a resposta é: ele não tem.

Nós agradecemos a atenção do senhor Ernesto, e falamos que íamos avisar a Dona Julieta de suas intenções para com a ONG. Não era um bicho de sete cabeças como ela havia comentado, pelo contrário, o cara era muito gente boa e queria até nos ajudar. Só faltou ela ter escutado o que ele tinha pra dizer, e principalmente, não aumentar a história e colocá-lo como vilão.

- Ele não tem nada a ver com as mudas. – Leo finalmente comenta, no momento em que saímos da prefeitura.

- Eu sei, ele é bem legal, até.

- Verdade. Tá bom, antes da gente falar com a velha, tem-

- De novo, Leonardo? – eu o repreendo. Chamando a Dona Julieta de velha novamente, esse moleque não tem jeito.

- Tá bom, tá bom, parei. Eu ia dizer: antes de falarmos com a DONA JULIETA, temos que descobrir quem fez aquilo com as arvorezinhas, porque até agora, nós só temos a informação das pás. – ele fala enquanto caminhamos pela rua.

Quando ele fala sobre as pás, eu percebo a porta da ONG aberta, e cinco coisas me passam pela cabeça: (1) a ONG fecha ao meio dia, mas se alguém quiser entrar para pegar alguma coisa deve (2) pegar a chave com a algum responsável (Julieta ou Armindo) e (3) avisar no grupo, mesmo Arvorense comum ou responsável, para não ocorrer mal entendidos, o que (4) não havia acontecido, o que significa que (5) alguém estava ali “ilegalmente”, pode-se dizer.

- Leo, o Arvoredo tá aberto.

- Nossa, será que é...

- Eu acho eu sim, vamos entrar.

Nós entramos em silêncio na sala da ONG, mas não havia ninguém lá dentro, além dos objetos que já estávamos acostumados a enxergar. Leo foi checar a cozinha, com cautela, mas ela também estava em ordem. Eu começo a observar melhor a sala, e logo enxergo o que procurávamos: uma pá suja de terra que, diferente das outras que ficam em uma área externa atrás da sala, não estava guardada no local correto, e sim jogada em um canto perto da porta de entrada. Eu a seguro, fazendo o mínimo de barulho possível que consigo – o que, na real, não tinha muita importância, a rua estava bem barulhenta por causa da quantidade de carros que passavam nesse horário – e ao analisá-la, enxergo uma marca de tinta preta no cabo.

- Leo, checa pra mim se a impressora tá com tinta. – eu sussurro para o meu companheiro investigativo, que voltava da cozinha nesse exato momento. Ele abre a impressora cautelosamente e me dá o veredito.

- Tem sim, e bastante, alguém trocou hoje de tarde.

De repente, nós escutamos um barulho vindo da área externa. Eu e o Leo nos entreolhamos, quase congelados, e decidimos ir ver quem era a pessoa que estava lá atrás e, consequentemente, quem havia (talvez) trocado a tinta da impressora e (com certeza) arrancado as mudas do parque. Eu fui na frente, com a pá em mãos (nunca se sabe, né) e o Leo veio me seguindo, até que ambos corremos até a porta e enxergamos o indivíduo.

- SEU ARMINDO?! – Nós exclamamos ao mesmo tempo. No flagra, ele estava escondendo as mudas que foram arrancadas dentro de um barril velho.

- AAH... oi, crianças, tudo bem? Hehe... – ele percebe que foi pego de surpresa e nos olha, envergonhado.

- Então foi o senhor... Mas por quê? – Leo pergunta, bastante desconfiado.

- Não faz sentido, o senhor é um Arvorense raiz, era para estar nos ajudando, não complicando ainda mais nosso trabalho... – eu falo. Ele me decepcionou, mas ainda não sei quais eram as intenções dele ao fazer o que fez.

- Leonardo, Bianca... Não sei se vão me perdoar pelo que fiz, mas eu vou contar o porquê de eu ter o feito.

O senhorzinho de 60 anos de idade e com rosto abatido se senta em uma cadeira de plástico, que estava ao lado dele, enquanto eu e Leo esperamos ele nos contar suas motivações.

Ele começa a contar o início de tudo: quando a ONG Projeto Arvorense foi criada. Nessa época, Julieta havia chegado na casa da irmã, Joana, com essa ideia, e não parava de falar os seus planos para a cidade. Seu Armindo, casado com Dona Joana há 16 anos, assistia a empolgação da mulher, e juntos, os três, decidiram fundar a ONG com a ajuda de alguns amigos e muito trabalho. Os primeiros anos foram difíceis, ainda não eram reconhecidos pela comunidade e nem recebiam muitas doações, mas com a entrada de um novo prefeito no comando da cidade eles conseguiram estabelecer uma relação forte com a prefeitura, e assim, também com os cidadãos de Santo Humberto do Norte. Eles tiveram a ideia genial de transformar o parque desajeitado e mixuruca em um local mais verde, mais bonito, acessível e tranquilo. Logo, com o esforço do grupo de Arvorenses e com o apoio da cidade inteira eles conseguiram com êxito.

Armindo começa a sorrir, relembrando dos velhos tempos. Ele continua a história falando dos pinheiros, pois era o local favorito dele e da esposa. O casal, com a ajuda de Julieta, foram os responsáveis por plantar e cuidar de todos aqueles pinheiros que cresciam no parque, dessa forma, Seu Armindo e Dona Joana sentiam a necessidade de estar perto deles. Passavam horas deitados na grama conversando e olhando para o céu, enquanto os pinheiros cresciam cada vez mais e se tornavam gigantes. Então, Joana teve uma ideia: podiam gravar os nomes deles em um dos pinheiros, sinalizando que aquele casal amoroso eram os “donos” de lá. E assim fizeram, cravaram seus nomes com um estilete na casca do maior dos pinheiros, juntinhos, em ato clichê, porém, muito fofo.

- Ela era a minha luz, e aqueles pinheiros significavam muito para nós dois... – ele para de falar e lacrimeja um pouco. – mas o câncer levou o meu amor embora, para bem longe deles e de mim. Eu arranquei as mudas porque sabia que a Julieta iria colocar a culpa no moço do restaurante, e talvez desse jeito ela conseguisse convencer o prefeito a negar a obra, mas eu me arrependo, foi uma decisão estúpida, era óbvio que não iria funcionar. Ah, Joana, o que você faria no meu lugar..? – ele começa a chorar baixinho, com um aperto no coração, a saudade da esposa batia muito forte em seu peito.

- Seu Armindo... Tudo bem, nós entendemos. – Leo fala enquanto vai abraçá-lo, e eu me junto a eles. A coisa mais doída do mundo é ver um idoso sofrer, e eu não aguento ver algo assim.

- Obrigada, crianças. – ele dá um sorriso triste – na verdade, vocês nem são mais crianças, haha. Bom, acho que vocês tem que contar o que eu fiz para a Julieta, se não ela vai fazer um escândalo na prefeitura. Melhor pará-la, o restaurante vai ser construído e não tem nada que nós possamos fazer. – ele olha para o céu, um pouco decepcionado consigo mesmo.

Eu penso um pouco, olho para o Leo, e ele lança um olhar de “o que a gente faz?", até que me vem uma ideia muito boa na cabeça.

- Na verdade, eu acho que tem, sim.


O Seu Armindo trancou a sala da ONG, nos agradeceu por ouvi-lo e pediu desculpas novamente, e nós o perdoamos. Ele só queria salvar as lembranças com a falecida esposa dele, que mal havia nisso? Eu e Leo nos despedimos dele, enquanto íamos à casa da Dona Julieta.

Ao chegar lá, ela estava trancando a porta justamente para ir à prefeitura procurar o Senhor Ernesto (provavelmente ela não iria ser muito fofa, não), mas nós a barramos e contamos tudo que ocorreu: o nosso achado no parque, a conversa com o empresário, o Seu Armindo na ONG e as motivações dele ter arrancado as mudas. Quando ela escutou sobre o Ernesto, ficou muito aliviada, mas arrependida, pois ela quase saiu para cima do homem somente por não o deixar explicar suas ideias. Em relação ao Armindo, ela entendeu as motivações dele, mas ainda ficou um pouco irritada por ele ter a enganado tão bem. Então, nós contamos a nossa ideia, e ela ficou muito animada e disse que devemos correr atrás da mesma, porque com certeza faria tanto ela quanto Armindo felizes.

E assim, o tempo passa.

Alguns dias depois, a construção do restaurante já havia iniciado, e eu, juntamente com Leo, Caetano e Dona Julieta, decidi que já deveríamos levar o Seu Armindo para ver o andamento da obra. Quando o convidamos, ele rejeitou, pois sabia que seria muito doído enxergar o seu pinheiro marcado derrubado, sem vida, se tornando apoio para uma obra. Mas nós insistimos, e ele acabou cedendo.

Ao chegar lá, observamos que a obra está levantando lentamente, com alguns pinheiros derrubados e cortados. Mas, o principal, e o que chama a atenção de Armindo, é que um dos pinheiros, só um, no meio de tanta construção, continuava intacto: era o seu pinheiro. Era o pinheiro de sua esposa. Era o pinheiro da marca. Eu e o Leo havíamos conversado novamente com o Senhor Ernesto, para contar a história do Seu Armindo e propor que ele deixasse aquele pinheiro de pé, sinalizando que o amor dos dois havia vencido. Ele se emocionou com a história e concordou com a ideia, fazendo com que o restaurante tivesse, em sua entrada, um grande pinheiro marcado com os nomes de Armindo e Joana Cruz, dois dos fundadores da ONG Projeto Arvorense. A felicidade nos olhos do senhor que havia perdido a esposa para o câncer, e que agora continuava eternizada na árvore deles, era visível. Nós havíamos chamado o Ernesto para vir também, e ele chega logo em seguida. A Dona Juliana e o Seu Armindo o agradecem por aquele ato e, inesperadamente, Dona Juliana dá um abraço em Ernesto, coisa que, se me dissessem semana passada que ocorreria, eu não teria acreditado.

A obra provavelmente ainda vai demorar para ser finalizada, mas da mesma maneira, Ernesto diz que todos nós sempre seremos bem vindos ao local, e avisou que o reflorestamento já estava sendo executado, parte na praça e parte no centro. Assim, ele se despede de nós e volta aos seus afazeres de homem dos negócios. Enfim, Dona Julieta e Seu Armindo agradecem a mim e ao Leo, nos dando um abraço apertado e quase sufocante, mas singelo.

Eu e Leo nos despedimos do trio, que iria continuar ali só por alguns minutos a mais. Então, saímos do parque que agora, além de muitas árvores, iria ter um restaurante e um pinheiro com um belo passado a ser contado.



Eai! Voltei com a série.

O episódio ficou bem grandinho, mas eu gostei de escrevê-lo. A capa eu fiz no word, por isso ficou toda mal cortada e torta (olhe para o rosto da Bianca e você saberá do que falo), mas o que vale é a intenção.

As minhas ideias para um próximo episódio estão bem escassas, então eu posso demorar para postar um novo episódio. Mas você pode dar alguma sugestão nos comentários, se tiver. Eu vou ficar bem feliz :D


Pois bem, é isso, se cuidem!

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