VICKY A MENINA AZUL

CONTO DA PROFESSORA MARCIA JULIANA




Que as coisas de Deus são um mistério, todos sabemos. Tentar entender o universo e suas galáxias é algo que ao longo da história os seres humanos estão quebrando a cabeça para tentar entender e explorar. Porém, existem muitos planetas e estrelas e cada um tem sua história. Me chamo Cézar e desde meus 15 anos participo de trilhas e expedições exploratórias nos mais diferentes tipos de terreno. Hoje, com 35, tenho um amor especial pelas cavernas e oceanos e nunca imaginei que em uma dessas expedições, na qual eu e meus amigos nos embrenhamos, encontraríamos um misterioso tesouro.





Richard tinha me convidado para participar de uma expedição no litoral em que faríamos uma trilha para tentar acessar uma caverna em um rochedo enorme à beira mar. Precisaríamos fazer rapel, o que não era problema, pois já vinha treinando há um ano, aceitei de imediato o convite. Fomos para a praia do bananal no litoral do Rio de Janeiro no final de semana, uma praia de difícil acesso, que para chegar, só por uma trilha de uns 5km. Nessa aventura, fomos eu, Richard, Tiago e Sérgio, a intenção era sair de manhã cedo para aproveitar bem o dia de sol, fazermos um rapel seguro e explorarmos a profundidade da caverna.



O pessoal estava animado, meus amigos são parcerias de anos e temos uma sintonia muito boa para nossas aventuras por florestas e mares. Pelos nossos cálculos faríamos a descida em no máximo uma hora, duas horas para a caverna e mais uma hora para a subida. À tarde, já estaríamos na pousada para almoçar e descansar, apreciar uma praia à tarde e à noite um lual com a galera. Mas nossos planos não foram bem assim não. No domingo, o dia estava ensolarado, acordamos cedo, aí pelas 7h e 30 min, nos arrumamos, organizamos as mochilas e fomos tomar café na pousada. A proprietária da pousada, Dona Matilde, nos recebeu toda animada e como já sabia de nossa aventura comentou:

- Dia perfeito para um rapel e conhecer a Caverna Azul não é gurizada!


- Verdade Dona Matilde! O sol está radiante, não quer ir com a gente curtir um rapel? Disse Richard.


- Adoraria! Vocês sabem que quando era mais nova tentei fazer rapel nas cachoeiras de Pindamucá no sul do litoral, gostei bastante, mas quis o destino que fosse só uma vez a minha experiência, nunca mais surgiu a oportunidade e uma boa parceria para praticar o esporte. Por isso, deixo vocês bem à vontade, aproveitem o sol, o dia e o café que preparamos para nossos queridos hóspedes. Mas prometo que hoje à noite participarei do lual na praia, todos os finais de semana fazemos e amo de paixão o mar quentinho da noite. Vocês vêm, não é?!


- Claro, Dona Matilde, estou ansioso para conhecer as gatinhas da praia do bananal no lual hoje, diz que só dá mulher bonita, quero comprovar- falou Tiago animado.


Tomamos nosso café bem tranquilos e partimos para o rochedo, algumas fotos no caminho para registrar e compartilhar no Facebook e Instagram. De imediato, percebíamos as curtidas dos amigos e familiares, porém me chamou a atenção que alguém muito especial para mim não curtiu nem comentou na hora, não sei por que queria que ela estivesse naquela hora ali para curtir também, enfim, tentei esquecer o fato. Chegamos no local conforme o tempo previsto. Descemos as pedras com bastante facilidade, mais próximo do mar, a rocha mais úmida e com musgos, dificultou um pouco a pisada, mas nada complicado. Chegamos na caverna:


- Uau! Que maravilha! Disse Sérgio. Não imaginei que era tão linda e profunda!


Estranhamente, o fundo da caverna parecia razoavelmente iluminado, parecia que um canal por onde passava a luz criava efeitos muito bonitos nas paredes da caverna. Pelo som das águas, observamos que no fundo podia ter algum lago ou algum canal que vinha do mar. Começamos a entrar na caverna, tudo sob controle, alguns morcegos se assustavam com a luz das lanternas e se agitavam. Fotos e mais fotos para registrar; os vídeos eram por conta do Sérgio, que filmava o que podia, sem perder o encanto das imagens e das rochas.



Como suspeitávamos, chegamos em um lindo lago dentro da caverna, um canal de sol iluminava por entre as rochas e provavelmente outro canal debaixo das rochas trazia a água do mar para o lago. Sem pestanejar, largamos nossas mochilas e equipamentos para mergulhar. A água estava geladinha, precisávamos disso para relaxar um pouco da atividade física feita até o momento. Na água cristalina, pude perceber no canto de uma rocha no fundo algo que parecia uma caixa preta. Cheguei a pensar, será uma caixa preta de um avião?

Mergulhei novamente para inspecionar o objeto enquanto os camaradas aproveitavam o outro lado do lago. Mergulhei mais uma vez com o intuito agora de trazer a caixa preta para cima e assim fiz. Quando eu saí com a caixa do lago, Sérgio apavorado disse: - Que isso Richard?

Eu, meio sem saber do que se tratava, estava curioso para abrir a caixa, levei para mais próximo do canal de luz e com a lanterna observava os detalhes da caixa. Realmente, não era uma caixa preta, parecia mais um netbook, tinha umas inscrições que mais pareciam hieróglifos, estranhei mais ainda. Calmamente, olhando para a caixa, parece que fui hipnotizado por ela e uma sensação de calma e relaxamento tomou conta de mim e pensei:


-Abre!

Num passe de mágica, a caixa abriu e uma tela sobrevoou até a altura do meu rosto a uma distância perfeita para eu poder assistir a um vídeo. Os hieróglifos apareciam como textos, Sérgio, Tiago e Richard apavorados observavam a cena sem dar um pio. Muito calmamente se aproximaram da tela meio que hipnotizados também, sentaram e observavam os “textos” na tela.

De repente, era como se a máquina estivesse fazendo uma sintonia, parecia um som de rádio tentando sintonizar, a tela com os hieróglifos, tremendo um pouco, nos assustaram, os textos apareciam agora em alemão, italiano, inglês reconheci muito bem, até que começou a aparecer tudo em português.

Do nada, aparece na tela uma moça azul de um metro e 60 mais ou menos, cabelos dourados e olhos cor de mel, pensamos ser uma mulher, pois nossa intuição assim dizia, mas na verdade não sabíamos a origem daquele ser. Espantados não sabíamos o que dizer, seduzidos pela imagem da estranha jovem ouvíamos ao mesmo tempo sua voz na sua língua original indistinguível e automaticamente a tradução para o Português, não sei como nosso cérebro conseguiu isso, mas entendíamos perfeitamente o que ela falava. A paisagem atrás dela era de outro mundo, um céu laranja fraco com nuvens azuis, árvores finas e altíssimas muito estranhas, deveriam ser árvores amarelas, um chão de pedras preciosas cor de rosa, enfim era um carnaval de diferentes padrões e cores para nossos olhos que mais nos hipnotizava. Vicky era o nome dela, parecia estar conectada conosco naquele momento e contou sua história, a qual relatarei agora:

Vicky habitava o planeta Arturus, na cidade de Lux, nasceu em uma família bem estruturada dentro da sociedade, muito amada pelos pais, teve boa educação e condição de vida. Era uma menina meiga, alegre, criativa, e muito ingênua, sua inocência encantava a todos. Protegida pelo mundo romântico da imaginação, cresceu não conhecendo o mal. Aos seus 15 anos, sentiu os primeiros sintomas do que viria a ser o seu dom principal. Tinha uma sensibilidade peculiar que estava se constituindo diferentemente dos outros.




Arturianos são por natureza fortes e inabaláveis em suas emoções, a tranquilidade e segurança são pilares fundamentais de um povo que atingiu um nível de desenvolvimento cognitivo e tecnológico apurado, em que carros espaciais são fichinha. Ela começou a perceber que aquela força e segurança das pessoas ao seu redor escondia sentimentos e cores que variavam estrondosamente e sem saber do que se tratava estranhou. Esperando que esses sintomas diminuíssem, tentou manter-se firme e forte, pois sabia que a fortaleza de seu povo estava se solidificando nela mesma, assim achava.


Por um longo período, sua sensibilidade se estabilizou até que com 30 anos tudo mudou. Vicky sentia-se muito diferente dos Arturianos comuns, angustiava-se com frequência a respeito de coisas banais e básicas, conseguia com mais clareza ler os pensamentos e sentimentos dos Arturianos. Seu comportamento começou a mudar, confusa com tantas impressões diferentes receava procurar ajuda, pois achava que o que experimentava era normal apesar das diversas metamorfoses sentidas no processo de desenvolvimento de seu dom.

Aos 33 anos, ela já se considerava uma telepata, conseguia captar facilmente os pensamentos e sentimentos das pessoas ao seu redor e começou a tirar vantagem disso. Certo dia, seu pai que era um ser muito aventureiro e tinha comprado um ovanóide novo (seria um carro voador de alta tecnologia com capacidade de viajar por diversas galáxias) a convidou para passear.




Vicky que já tinha idade para se aventurar nas galáxias com supervisão paternal aceitou muito animada. Porém, naquele dia seu pai resolveu fazer algo extremamente proibido na lei arturiana, ou seja, invadir o espaço aéreo de outro planeta ou estrela. Seu pai tinha uma ousadia e fortaleza extrema, sua alma aventureira fazia o crer que entraria na estrela Capella que, segundo ele, era inabitada.

Joby, seu pai, com inteligência avançada e muita habilidade entrou no espaço aéreo da estrela Capella, estávamos encantados com a dimensão dela e suas paisagens, totalmente diferentes de Arturo, muitos indícios que pudesse ser habitada e assim foi. De repente, nosso ovanóide foi paralisado e instantaneamente dois Capellanos se materializaram dentro de nossa nave para nos interceptar. Meu pai apavorado viu que estava com problemas, mas sabia que sairíamos dessa.

Um dos Capellanos era guarda aéreo e tinha uma pele rosa, olhos verdes e cabelos acinzentados curtos, chama-se Hectory, em questão de segundos, ele trocou mensagens telepáticas com Vicky. O olhar dos dois se conectou na mesma hora, sabiam que tinham sido feitos um para o outro. Telepaticamente conversaram sobre tudo e toda suas vidas em segundos. Vicky assustada, pois nunca tinha conversado dessa maneira com alguém, sabia que Hectory era alguém muito especial, mas como ela poderia ter um romance com um Capellano, um ser de uma estrela? Isso era impossível!

Joby percebeu a conexão dos dois, mas não imaginou que pudessem estar conversando telepaticamente, principalmente, pois arturianos não desenvolvem comumentemente este dom. Tentou argumentar pacificamente com o outro guarda que acompanhava Hectory em um esquema de tradução simultânea de língua e foi dado a ele uma hora para partir sem ser atacado pelas Forças Estelares de Capella. Vicky percebendo a partida, tentou rapidamente materializar sua máquina, o netbook lá da caverna e presenteou Hectory para que pudessem se comunicar, pois não sabia se sua habilidade telepática funcionaria a tantos metros de distância em Arturo. Estava apaixonada!




Enquanto esteve no espaço áereo de Capella, Vicky se comunicou perfeitamente com Hectory, mas quando entrou na dimensão galaxial, percebeu a comunicação mais sútil e com interferências. Porém, seu “netbook” possibilitava a comunicação frequente entre o casal que se conhecia e se amava cada vez mais, apesar da distância e de suas incríveis diferenças. Bom, a história de Vicky me emocionou muito, pois lembrei que tinha brigado com minha namorada, pois éramos muito diferentes. Ao ouvir sua história na caverna, não parava de pensar em Marília, minha namorada, tínhamos brigado há 15 dias e não pensava em reatar. Confesso que pensei:


- Se pessoas de planetas diferentes conseguem se amar, por que eu e a Marília não?


Sérgio e Tiago ao meu lado também pareciam encantados com a história. Parecia que tínhamos ficado ali umas 2 horas ouvindo Vicky, porém foram só 20 minutos. Richard parece que acordava, o relaxamento inicial quando fomos seduzidos pelo netbook de Vicky o fez dormir durante a conversa, não sei se ele acompanhou muito da experiência.



Quando percebemos saímos daquele estado de transe e rapidamente voltamos ao normal, decidimos voltar para a pousada. A nossa dúvida era se deveríamos levar ou não “o netbook” conosco. Será que deveríamos esquecer essa história ou continuar conversando com Vicky? Na dúvida, tiramos um par ou ímpar e o resultado foi que devíamos levar. Como o “netbook” de uma arturiana foi parar em uma caverna na terra? Era a grande pergunta. Como nossa conexão tinha sido desfeita, creio que saberemos em outro momento se nossa amiga decidir se conectar de novo. Confesso que não vejo a hora!


(Obs: Não possuo os direitos autorais das imagens. Todas foram copiadas do Pinterest e são meramente ilustrativas)

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